Outros artigos de Ricardo Lewandowski
Importado da ConjurTexto preservado aqui para leitura direta — leia também na fonte original ↗
Artigo doutrinário

Eleitor não é cordeiro diante de lobos

As fábulas constituem um gênero literário, de cunho popular, disseminado de boca a boca por diferentes povos desde a mais remota

Ler no Conjur Entrar para salvar Baixar PDF acadêmico Bookmarklet

Citação acadêmica

Copie a referência deste artigo no estilo da sua escolha e cole no seu trabalho. Geramos a citação no padrão exigido pela maioria das revistas jurídicas brasileiras. Ver guia completo.

Ver prévia das três referências▸
ABNT
LEWANDOWSKI, Ricardo. Eleitor não é cordeiro diante de lobos. conjur_import, 24 jul. 2022. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2022-jul-24/ricardo-lewandowski-eleitor-nao-cordeiro-diante-ataques-lobos-lewandowski. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/ricardo-lewandowski/ricardo-lewandowski-eleitor-nao-e-cordeiro-diante-de-lobos. Acesso em: 26 set. 2026.
APA
Lewandowski, R. (2022, July 24). Eleitor não é cordeiro diante de lobos. *conjur_import*. https://www.conjur.com.br/2022-jul-24/ricardo-lewandowski-eleitor-nao-cordeiro-diante-ataques-lobos-lewandowski
Chicago
LEWANDOWSKI, Ricardo. 2022. “Eleitor não é cordeiro diante de lobos.” *conjur_import*, July 24. https://www.conjur.com.br/2022-jul-24/ricardo-lewandowski-eleitor-nao-cordeiro-diante-ataques-lobos-lewandowski
BibTeX
@article{ricardo-lewandowski-eleitor-n-o-cordeiro-diante-de-lobos-2022,
  author = {Lewandowski, Ricardo},
  title = {Eleitor não é cordeiro diante de lobos},
  journal = {conjur_import},
  year = {2022},
  url = {https://www.conjur.com.br/2022-jul-24/ricardo-lewandowski-eleitor-nao-cordeiro-diante-ataques-lobos-lewandowski},
  urldate = {2022-07-24}
}

As fábulas constituem um gênero literário, de cunho popular, disseminado de boca a boca por diferentes povos desde a mais remota antiguidade. Elas têm como personagens animais com características humanas, cujas ações refletem os defeitos e as virtudes das pessoas. Desde a origem, foram empregadas para criticar ricos e poderosos por meio de sátiras e alegorias, culminando, usualmente, com uma frase que encerra uma lição de moral.

Atribui-se a paternidade dessas narrativas ao escritor Esopo, que viveu na Grécia Antiga (620 a. C. a 564 a. C. ). Sua vasta obra serviu de inspiração, além de outros, ao ensaísta romano Fedro (20 a. C. a 50 d. C.) e ao literato francês La Fontaine (1621-1695), que reescreveram, com traços estilísticos próprios, algumas das historietas do autor grego, dentre as quais uma das mais famosas, intitulada "O Lobo e o Cordeiro", grosso modo abaixo reproduzida.

Em um pequeno córrego, bebia água um lobo faminto, quando se aproximou mais abaixo um cordeiro, que também começou a beber.

Com um olhar ameaçador e dentes arreganhados, o lobo grunhiu: "Como você ousa turvar a água onde bebo?"

O cordeiro, humildemente, redarguiu. "Eu estou abaixo da correnteza e, por isso, não poderia sujar a sua água." O lobo, enraivecido, rosnou. "Seja como for, sei que você andou falando mal de mim no ano passado: ' O cordeiro, tremendo de medo, retrucou: 'Não é possível, no ano passado, eu ainda não tinha nascido."

O lobo, pego de surpresa, replicou. "Se não foi você, foi seu irmão, o que dá no mesmo." Apavorado, o cordeiro defendeu-se, mais uma vez, retorquindo: "Eu não tenho irmão, sou filho único". Já salivando, o lobo rezingou: "Então, foi alguém que você conhece, um outro cordeiro, um pastor ou um dos cães que cuidam do rebanho". E, saltando sobre ele, devorou-o. Moral da história: quem pretende usar a força não se sensibiliza com nenhum argumento.

Esta velha fábula remete-nos à inusitada situação vivida atualmente no Brasil, na qual agentes governamentais, secundados por integrantes de estamentos armados — ao que se sabe, minoritários — colocam em dúvida, mediante alegações completamente infundadas, a segurança das urnas eletrônicas, que há cerca de 25 anos captam e computam, sem maiores contestações, os votos dos eleitores brasileiros.

Quem acompanha essa polêmica, no mínimo farsesca, constata estupefato que, a cada refutação ofertada por juristas e técnicos em informática, os detratores de nosso processo eleitoral, respeitado pela grande maioria dos cidadãos brasileiros e admirado pela comunidade internacional, articulam renovadas cavilações para solapar a credibilidade do pleito que se avizinha, com a ameaça velada de rejeitar o seu resultado, caso os candidatos pelos quais externam despudorada preferência não se sagrem vencedores.

Ocorre que, desta feita, contrariando o epílogo da parábola esopiana, os lobos não levarão a melhor, por mais que elaborem sofismas e exibam as presas, pois os hoje mais de 150 milhões de brasileiros aptos a votar — os quais de cordeiros não têm nada —, escaldados pelos  incontáveis retrocessos institucionais que maculam acrônica política nacional, certamente haverão de fazer prevalecer a sua vontade soberana.

A moral dessa nova narrativa talvez possa ser sintetizada na sempre oportuna advertência de Ulysses Guimarães: "Nosso povo cresceu, assumiu o seu destino, juntou-se em multidões, reclamou a restauração democrática, a justiça social e a dignidade do Estado".

*artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo

Compartilhar
Vídeos relacionados
Continue lendo sobre
Outros artigos sobre este tema
acervo com mais de 1.800 artigos

Este artigo foi originalmente publicado em conjur.com.br e está aqui hospedado para leitura, citação e uso como anexo a coleções de vídeos do JurisTube. Os direitos autorais permanecem com o(a) autor(a) e com o veículo original.

  1. Read this page in English?
    One click and JurisTube switches languages.